Uma solução para um problema de comunicação muito específico

Hoje existem mais de 3.600 emojis no padrão Unicode e eles estão presentes em praticamente toda comunicação digital do planeta. Mas essa história começa de forma muito mais modesta, no final dos anos 1990, no Japão, com um designer de 25 anos tentando resolver um problema bem concreto: como transmitir emoção e contexto em mensagens de texto com limite de caracteres e telas minúsculas.

O Japão dos anos 1990 e a comunicação pelo celular

Para entender o contexto é preciso imaginar o Japão daquela época. O país estava na vanguarda da comunicação móvel, com uma cultura de mensagens de texto que crescia rapidamente entre jovens. As operadoras de telefonia competiam para oferecer serviços cada vez mais sofisticados em aparelhos com telas pequenas e capacidade técnica muito limitada pelos padrões de hoje.

Um dos maiores desafios era a comunicação emocional. Uma mensagem curta de texto é naturalmente fria e ambígua. A frase “tudo bem” pode ser respondida com sinceridade ou com ironia e quem lê não tem como saber a diferença sem algum elemento adicional que carregue o tom da mensagem. No mundo físico o tom de voz, a expressão facial e a linguagem corporal fazem esse trabalho. No texto puro não existe nenhum desses recursos.

Shigetaka Kurita e o conjunto de 176 pictogramas

Shigetaka Kurita trabalhava como designer de interfaces na NTT DoCoMo, uma das maiores operadoras de telefonia do Japão, quando recebeu a tarefa de criar um conjunto de símbolos visuais para o i-mode, uma plataforma de internet móvel que a empresa estava desenvolvendo. O sistema permitia o envio de e-mails mas limitava as mensagens a 250 caracteres, o que tornava a comunicação ainda mais concisa e a necessidade de transmitir contexto ainda mais urgente.

Kurita tinha que trabalhar dentro de limitações severas. A maior delas era a resolução de apenas 144 pixels disponíveis, organizada em uma grade de 12 por 12 pixels. Era nesse espaço minúsculo que cada símbolo precisava ser desenhado de forma reconhecível e expressiva.

O resultado foi um conjunto de 176 pictogramas criados do zero, cobrindo emoções, condições climáticas, transportes, objetos do cotidiano e símbolos diversos. Para criar o conjunto, Kurita se inspirou no mangá japonês, onde personagens são frequentemente representados com símbolos visuais chamados manpu, como uma gota de suor no rosto representando nervosismo. Também buscou referência em placas de sinalização e ícones de interfaces que já existiam.

A palavra que define tudo

O nome emoji não é acidental nem decorativo. A palavra vem do japonês e combina “e” que significa imagem ou figura, “mo” de escrever e “ji” de caractere. É literalmente pictograma em japonês, uma língua que já tem uma relação histórica com a comunicação visual dado que seus próprios caracteres são derivados de ideogramas com origem pictórica.

Essa raiz cultural é relevante. O Japão já tinha uma tradição de comunicação visual densa, presente nos mangás, nas placas públicas e na própria estrutura da escrita. Criar um conjunto de símbolos para comunicação digital não era um salto conceitual tão grande quanto seria em outros contextos culturais.

Uma disputa histórica que vale mencionar

A história costuma creditar Shigetaka Kurita e a NTT DoCoMo com a criação do primeiro conjunto de emojis em 1999. Mas pesquisadores descobriram evidências de que a operadora SoftBank lançou um conjunto de 90 emojis em 1997, dois anos antes, com designer desconhecido. O próprio Kurita reconheceu em declarações públicas que a NTT DoCoMo não foi a primeira operadora japonesa a usar pictogramas em celulares.

O que não está em disputa é a influência. O conjunto criado por Kurita foi o mais elaborado, o mais diverso em termos de categorias e o que estabeleceu os padrões visuais que influenciaram diretamente os emojis que existem hoje. O conjunto original de 176 emojis foi incorporado ao acervo permanente do Museum of Modern Art de Nova York, o MoMA, onde foi exibido como obra de design de relevância histórica.

De solução local a linguagem global

Por mais de uma década os emojis permaneceram essencialmente um fenômeno japonês, restritos às operadoras e aparelhos do país. A expansão global começou quando Apple e Google decidiram incluir suporte a emojis em seus sistemas operacionais, abrindo o acesso para usuários do mundo inteiro.

Foi a inclusão no padrão Unicode, o sistema universal de codificação de caracteres usado por todos os sistemas modernos, que transformou os emojis de um recurso local em uma linguagem verdadeiramente global. A partir daí qualquer dispositivo no mundo passou a poder enviar e receber emojis de forma padronizada, independente do fabricante ou do sistema operacional.

Kurita disse em entrevistas que ficou surpreso com o tempo que levou para os emojis se tornarem populares fora do Japão, e que quando isso aconteceu, por volta de 2012, a repercussão global o pegou de surpresa.

O que o criador pensa sobre o que criou

Kurita tem uma visão curiosamente crítica sobre a evolução dos emojis. Para ele os emojis modernos, com suas representações detalhadas e realistas, se afastaram do conceito original de pictograma simples e expressivo. Ele acredita que hoje existem emojis demais e que muitos deles são usados apenas uma vez, perdendo a característica de símbolo universal que definia os originais.

Seu favorito pessoal é o coração, que foi também um dos primeiros símbolos a aparecer em dispositivos japoneses ainda antes do conjunto completo ser criado. Para Kurita o coração representa o que um emoji deveria ser: um símbolo com significado positivo, universalmente compreensível e capaz de adicionar calor humano a uma mensagem que de outra forma seria apenas texto frio.

Para continuar entendendo

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Tecnologia não precisa ser complicada. Quando você entende o básico, até aquele coração que você manda numa mensagem carrega uma história de décadas e a solução criativa de um designer japonês para um problema muito humano.